domingo, 16 de dezembro de 2012

Devo esperar por você?

Ahn? O que? Ah, olá. Essa é a "história" nada mais nada menos em que um ser magnífico -- eu -- resolve dar uma chance à humanidade. 
Me chamo Fenris, sou adotado e aparentemente tenho 16 anos. Históricamente me chamo Fenrisulfr e sou filho de Loki com Angrboda, tenho aproximadamente 1790 anos catalogados mas quem liga? O garotinho têm 16 anos e não merece respeito, ninguém sabe sobre seu passado e vamos continuar com nossas vidas! Época boa era aquela em que os camponeses se humilhavam perante minha imagem feita de palha e trigo em celebrações para a colheita. Isso sim era sensação prazerosa. Mas o tempo passa e tudo muda, e não vamos fugir da história.


Inglaterra. Ano de 222 d. C. segundo o que venho estudando. Eis que a união entre a neve, a terra e as sementes dão origem a um ser cultuado entre os humanos por séculos, eu. Mas não vim a este mundo como vocês me vêem. Nasci com quatro patas, olhos vermelhos, pelagem alaranjada e com um rabo. Sim, um lobo. Cheguei à fase adulta em um mês na forma de lobo, mas ao aprender a me tornar 'humano' pude notar que minha idade era de um adolescente e assim permaneceria pela eternidade.
Em minha forma humana consegui conquistar várias pessoas pelos séculos e me adotaram como filho, mesmo sabendo das minhas anomalias como a orelha pontiaguda e o rabo peludo em tal forma. Escondiam-me tais anomalias com vestimentas adequadas, nada demais. Mesmo assim, eu ainda tinha os sentidos do meu lado animal como audição, olfato e visão todos aguçados.
Por séculos achei que meu coração era de pedra, pois nunca casara ou tivera filhos. Ninguém me interessava, e eu era muito reservado. Quando morei na França, à noite eu me transformava em lobo e andava pelas florestas vagarosamente para os caçadores não me notarem e de dia eu ia à igreja rezar, tudo para manter as aparências. Mas eis que uma tarde voltando da igreja avisto uma linda moça presa em um poste de madeira bem alto, gritando por ajuda. Lembro de cruzar meus olhos vermelhos com os azuis dela, e seus cabelos enrolados, curtos e louros brilhando contra o sol me chamavam a atenção. Era amor, e finalmente pude sentir o que todos da vila diziam se tratar. O amor nunca foi tão bom comigo. E de repente a face angelical daquela mulher foi trocada pela de uma criança clamando por piedade ao sentir o carlos das chamas em seu corpo. Sim, eu estava na época da Inquisição Católica, o maior massacre cometido pela humanidade contra a própria humanidade. Com meu olfato de lobo eu conseguia sentir o cheiro da carne queimando e me deliciava só de imaginar no gosto, mas logo era interrompido com os gritos da tal jovem da vila de Domrémy-la-Pucelle. Lembro-me da data ser 30 de janeiro de 1412. Meu primeiro grande amor era a Donzela de Domrémy, Joana d'Arc. Fiquei deprimido por meses por lembrar de ter me apaixonado por ela em um instante e no outro ver o brilho de seus lindos olhos partir. Fenris jurou nunca mais se apaixonar, por isso tornou-se frio e devorou lentamente todos que participaram desta cerimônia chamada Inquisição. Assassinos. Brutos. Cruéis. Deliciosos. Era gostoso sentir a carne desses padres e celibatos marcados com o pecado, a injustiça e a cegueira por achar que faziam o bem. Tolos e fúteis. E eu apenas ria após esquartejá-los com meus dentes pontiagudos para então engoli-los prazerosamente igual fizeram com o amor que tive por um instante em meu coração. Soube que valeu a pena fazer isso depois de saber, séculos depois, que ela se tornara uma santa. Pura ela não era, mas agora virara um ícone respeitoso.
Mais séculos se passaram, tudo mudou para a minha alegria. Não era mais cultuado em vilas, mas agora havia justiça entre nós. Eu achava isso pelo menos já que estavamos em plena década de 40, até que inicia-se a Segunda Guerra Mundial. Eu vagava pela Alemanha quando tudo se iniciou, e estava tentando conquistar a pessoa por quem me apaixonara desta vez. Chamava-se Pietra-Jeanne e tinha 20 anos, eu possuia 18 nessa época mas não mudei nada fisicamente. Minhas vestimentas não mudaram entre o tempo de Joana e Pietra, apenas meu espírito mudou agora que me acalmara e mergulhara no amor.
Pietra teve infância turbulenta, se apaixonou por quem não devia segundo sua doutrina religiosa e seu pai descobriu. O grande Marlon mandou quem amava Pietra para longe e cortaram relacionamentos desde então, apenas viam-se às vezes. Julgavam-na, e para provar o contrário aos outros ela conquistava o amado de quem a julgava e achava que isso era certo pois pensava que humilhara quem gostava de julgar sua pessoa. Pietra namorou um homem que a fez pouco feliz, pois este homem amava a religião e não ela. O homem parou de frequentar a igreja após eles se separarem, provando o quão redutível ele era. Ela também se "apaixonou" por outro homem que sentiu um afeto curto por ela no passado, e tempos atrás ela quis se apaixonar por ele. Nessa época eu já tinha me declarado a ela duas vezes pois três meses antes disso eu virei seu amigo. Na primeira vez que me declarei ela estava cega por um cara, na segunda vez ela estava cobiçando o outro e dessa vez ela me pediu ajuda para unir os dois. O que eu devia fazer? Resolvi ser bom e tentei com todas as minhas forças estabelecer essa união, mas ele disse que "só via ela como amiga e que não queria nada, e que já sabia quem era a mulher da vida dele". Eu não sabia se ficava feliz por mim ou triste por ela. Eis que decido tentar pela terceira vez, estando em processo ainda. O aniversário de Pietra chega e eu a presenteio com algo muito simbolista dizendo que eu a amo. Dias depois nos falamos, mas ela só me disse "eu não posso". Procurei saber o porque mas ela disse que iríamos conversar, e nos dias seguintes ocorreram coisas que dificultaram nossa conversa até hoje, e ainda espero isso. Pietra não tem como me contatar por enquanto, e só nos vemos aos finais de semana na igreja. De início eu frequentava por causa dela, mas agora vejo que isso é mais além, vou à tal igreja para refletir sobre o que tenho feito. Substituta do amor, devo esperar por você?
Do tempo nada apresso, sei que o que demora a chegar é porque vale a pena. Aprendi isso durante meus séculos de vida. E espero que a conversa seja boa o bastante para me alegrar, e que fique provado meus sentimentos por ela. Pietra sabe de meu segredo, mas tem receio se envolver pela doutrina religiosa. Sou retratado como uma criatura do diabo e meus atos me condenam a ir pro inferno. Sei que não irei, mas ela não sabe e deixa a doutrina fechar sua mente pra mim. Tudo é relativo, eu sei, mas eu posso ser aquele alguém que ela sempre pediu para ter ao seu lado. "Nosso" amor é proibido? Pela visão religiosa sim, pela visão da natureza não. Nós vivemos em mundos diferentes, mas eu sei no fundo de meu coração que nossos corações se entrelaçam. Eu sei que no fundo de meu coração, nós fomos destinados um ao outro. É egocentrismo isso, mas eu sei que nossos universos distintos nos une em algum ponto nessa parábola, e eu sei que preservaremos nosso destino eternamente. Sei que sou metade lobo, mas minha metade humana se conecta com o lado lobo quando estou do seu lado, então fique comigo. Estamos numa era fria, mas ainda pode ter amor. Fui louvado em vários países e aldeias mas isso é insignificante comparado ao que sinto por ti. Sou egoísta e isso não nego, mas só fico bem ao seu lado. Se terei de ser feliz, só serei ao teu lado Pietra. A História me convenceu de que quem espera sempre alcança, então nunca me deixe ir. 
"Eu esperei pra sentir o que é gostar de alguém, e agora vejo que vale a pena me entregar a este sentimento. Faça valer a pena". E essas foram minhas últimas palavras em meio a tanta confusão, agora vou esperar tudo se acalmar e o destino junto com o tempo agirem. Até lá... devorarei humanos.

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