Ahn? O que?
Ah, olá. Essa é a "história" nada mais nada menos em que um ser
magnífico -- eu -- resolve dar uma chance à humanidade.
Me chamo Fenris, sou adotado e aparentemente tenho 16 anos. Históricamente me chamo Fenrisulfr e sou filho de Loki com Angrboda,
tenho aproximadamente 1790 anos catalogados
mas quem liga? O garotinho têm 16 anos e não merece respeito, ninguém
sabe sobre seu passado e vamos continuar com nossas vidas! Época boa era
aquela em que os camponeses se humilhavam perante minha imagem feita de
palha e trigo em celebrações para a colheita. Isso sim era sensação
prazerosa. Mas o tempo passa e tudo muda, e não vamos fugir da história.
Inglaterra.
Ano de 222 d. C. segundo o que venho estudando. Eis que a união entre a
neve, a terra e as sementes dão origem a um ser cultuado entre os
humanos por séculos, eu. Mas não vim a este mundo como vocês me vêem.
Nasci com quatro patas, olhos vermelhos, pelagem alaranjada e com um
rabo. Sim, um lobo. Cheguei à fase adulta em um mês na forma de lobo,
mas ao aprender a me tornar 'humano' pude notar que minha idade era de
um adolescente e assim permaneceria pela eternidade.
Em
minha forma humana consegui conquistar várias pessoas pelos séculos e
me adotaram como filho, mesmo sabendo das minhas anomalias como a orelha
pontiaguda e o rabo peludo em tal forma. Escondiam-me tais anomalias
com vestimentas adequadas, nada demais. Mesmo assim, eu ainda tinha os
sentidos do meu lado animal como audição, olfato e visão todos aguçados.
Por
séculos achei que meu coração era de pedra, pois nunca casara ou tivera
filhos. Ninguém me interessava, e eu era muito reservado. Quando morei
na França, à noite eu me transformava em lobo e andava pelas florestas
vagarosamente para os caçadores não me notarem e de dia eu ia à igreja
rezar, tudo para manter as aparências. Mas eis que uma tarde voltando da
igreja avisto uma linda moça presa em um poste de madeira bem alto,
gritando por ajuda. Lembro de cruzar meus olhos vermelhos com os azuis
dela, e seus cabelos enrolados, curtos e louros brilhando contra o sol
me chamavam a atenção. Era amor, e finalmente pude sentir o que todos da
vila diziam se tratar. O amor nunca foi tão bom comigo. E de repente a
face angelical daquela mulher foi trocada pela de uma criança clamando
por piedade ao sentir o carlos das chamas em seu corpo. Sim, eu estava
na época da Inquisição Católica, o maior massacre cometido pela
humanidade contra a própria humanidade. Com meu olfato de lobo eu
conseguia sentir o cheiro da carne queimando e me deliciava só de
imaginar no gosto, mas logo era interrompido com os gritos da tal jovem
da vila de Domrémy-la-Pucelle. Lembro-me da data ser 30 de janeiro de
1412. Meu primeiro grande amor era a Donzela de Domrémy, Joana d'Arc.
Fiquei deprimido por meses por lembrar de ter me apaixonado por ela em
um instante e no outro ver o brilho de seus lindos olhos partir. Fenris
jurou nunca mais se apaixonar, por isso tornou-se frio e devorou
lentamente todos que participaram desta cerimônia chamada Inquisição.
Assassinos. Brutos. Cruéis. Deliciosos. Era gostoso sentir a carne
desses padres e celibatos marcados com o pecado, a injustiça e a
cegueira por achar que faziam o bem. Tolos e fúteis. E eu apenas ria
após esquartejá-los com meus dentes pontiagudos para então engoli-los
prazerosamente igual fizeram com o amor que tive por um instante em meu
coração. Soube que valeu a pena fazer isso depois de saber, séculos
depois, que ela se tornara uma santa. Pura ela não era, mas agora virara
um ícone respeitoso.
Mais
séculos se passaram, tudo mudou para a minha alegria. Não era mais
cultuado em vilas, mas agora havia justiça entre nós. Eu achava isso
pelo menos já que estavamos em plena década de 40, até que inicia-se a
Segunda Guerra Mundial. Eu vagava pela Alemanha quando tudo se iniciou, e
estava tentando conquistar a pessoa por quem me apaixonara desta vez.
Chamava-se Pietra-Jeanne e tinha 20 anos, eu possuia 18 nessa época mas
não mudei nada fisicamente. Minhas vestimentas não mudaram entre o tempo
de Joana e Pietra, apenas meu espírito mudou agora que me acalmara e
mergulhara no amor.
Pietra
teve infância turbulenta, se apaixonou por quem não devia segundo sua
doutrina religiosa e seu pai descobriu. O grande Marlon mandou quem
amava Pietra para longe e cortaram relacionamentos desde então, apenas
viam-se às vezes. Julgavam-na, e para provar o contrário aos outros ela
conquistava o amado de quem a julgava e achava que isso era certo pois
pensava que humilhara quem gostava de julgar sua pessoa. Pietra namorou
um homem que a fez pouco feliz, pois este homem amava a religião e não
ela. O homem parou de frequentar a igreja após eles se separarem,
provando o quão redutível ele era. Ela também se "apaixonou" por outro
homem que sentiu um afeto curto por ela no passado, e tempos atrás ela
quis se apaixonar por ele. Nessa época eu já tinha me declarado a ela
duas vezes pois três meses antes disso eu virei seu amigo. Na primeira
vez que me declarei ela estava cega por um cara, na segunda vez ela
estava cobiçando o outro e dessa vez ela me pediu ajuda para unir os
dois. O que eu devia fazer? Resolvi ser bom e tentei com todas as minhas
forças estabelecer essa união, mas ele disse que "só via ela como amiga
e que não queria nada, e que já sabia quem era a mulher da vida dele".
Eu não sabia se ficava feliz por mim ou triste por ela. Eis que decido
tentar pela terceira vez, estando em processo ainda. O aniversário de
Pietra chega e eu a presenteio com algo muito simbolista dizendo que eu a
amo. Dias depois nos falamos, mas ela só me disse "eu não posso".
Procurei saber o porque mas ela disse que iríamos conversar, e nos dias
seguintes ocorreram coisas que dificultaram nossa conversa até hoje, e
ainda espero isso. Pietra não tem como me contatar por enquanto, e só
nos vemos aos finais de semana na igreja. De início eu frequentava por
causa dela, mas agora vejo que isso é mais além, vou à tal igreja para
refletir sobre o que tenho feito. Substituta do amor, devo esperar por
você?
Do
tempo nada apresso, sei que o que demora a chegar é porque vale a pena.
Aprendi isso durante meus séculos de vida. E espero que a conversa seja
boa o bastante
para me alegrar, e que fique provado meus sentimentos por ela. Pietra
sabe de meu segredo, mas tem receio se envolver pela doutrina religiosa.
Sou retratado como uma criatura do diabo e meus atos me condenam a ir
pro inferno. Sei que não irei, mas ela não sabe e deixa a doutrina
fechar sua mente pra mim. Tudo é relativo, eu sei, mas eu posso ser
aquele alguém que ela sempre pediu para ter ao seu lado. "Nosso" amor é
proibido? Pela visão religiosa sim, pela visão da natureza não. Nós
vivemos em mundos diferentes, mas eu sei no fundo de meu coração que
nossos corações se entrelaçam. Eu sei que no fundo de meu coração, nós
fomos destinados um ao outro. É egocentrismo isso, mas eu sei que nossos
universos distintos nos une em algum ponto nessa parábola, e eu sei que
preservaremos nosso destino eternamente. Sei que sou metade lobo, mas
minha metade humana se conecta com o lado lobo quando estou do seu lado,
então fique comigo. Estamos numa era fria, mas ainda pode ter amor. Fui
louvado em vários países e aldeias mas isso é insignificante comparado
ao que sinto por ti. Sou
egoísta e isso não nego, mas só fico bem ao seu lado. Se terei de ser
feliz, só serei ao teu lado Pietra. A História me convenceu de que quem
espera sempre alcança, então nunca me deixe ir.
"Eu esperei pra sentir o
que é gostar de alguém, e agora vejo que vale a pena me entregar a este
sentimento. Faça valer a pena". E essas foram minhas últimas palavras
em meio a tanta confusão, agora vou esperar tudo se acalmar e o destino
junto com o tempo agirem. Até lá... devorarei humanos.

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